Publicado em:7 de julho de 2013

Review de Cosmopolis: "Ele é feito de dinheiro", discutindo um pouco mais sobre Eric Packer


Cosmopolis é um filme sobre rapidez, conversas difíceis em sua maioria ocorrendo em um carro. Suas participações narrativas são obscuras, falta-lhe qualquer coisa como um clímax, e apresenta alguns dos personagens mais sem alma e alienados eu já vi. No entanto com direção convincente do veterano canadense David Cronenberg e suas indicações oportunas sobre nossa maneira de financiar a vida, tornando-o uma sombria, comédia desconstrutiva que vale a pena assistir.

Para este post, eu gostaria de estreitar meu foco para o que eu acho que é o tema principal do filme: o corpo humano. Cronenberg, que dirigiu várias produções carnais como : The Fly, Videodrome, Dead Ringers, e Crash (não, não esse), está obviamente preocupado com a personificação como sujeito. Para ele, o corpo é um lugar de transformação, sofrimento, prazer e horror. Mas os seres humanos não são apenas carne, mas também a psicologia, e, portanto, um lugar onde podemos ver os limites "normativos" entre mente e corpo, por dentro e por fora, e todos os tipos de outras quebras e borrões. Em Cosmopolis, David Cronenberg investiga o que eu chamaria de entidades financeiras, órgãos que são abstraídos, racionalizados e rentabilizados para a inexistência ou irrelevância.

Nós estaremos olhando primeiro para o corpo de nosso protagonista, Eric Packer (perfeitamente encarnado por Robert Pattinson). Um prodígio financeiro no valor de dezenas de bilhões de dólares, ele inicia a trama do filme, estabelecendo a meta de seguir pelas ruas de Nova York em busca de um corte de cabelo. Neste dia, entretanto, o presidente norte-americano também está na cidade, bem como uma multidão de manifestantes anarquistas e uma chamada "ameaça crível" para a vida de Packer. Enquanto isso está acontecendo, ele vai intencionalmente destruindo sua empresa e fortuna pessoal através da especulação cambial ruim. Grande parte do raciocínio relacionado a isso permanece um mistério, embora surja alguma superfície aqui e ali. O filme faz com que enxerguemos grande parte do tédio e falta de arduosidade em seu avanço lento por toda a cidade em uma limusine tecnicamente avançada e muito bem guardada, aparentemente idêntico a todas as outras. Enquanto Packer é capaz de gerenciar todos os aspectos do seu negócio usando o carro dele através das redes e suas diversas interfaces do computador, ele consegue mover-se de um lado a outro da cidade para conseguir o seu corte de cabelo.

No início do filme, Packer também está obcecado com a segurança da rede, que está em contraste com o seu desrespeito alegre e por sua segurança física. Para ele, o mundo dos números, dos padrões harmoniosos e transações financeiras, que é real. O dinheiro, que é apenas uma metáfora abstrata para os nossos desejos, deslocou o real. Com a passagem principal da teoria explicita dele, em uma das cenas mais desconcertantes, deixa claro que a riqueza neste mundo das finanças existe apenas para replicar-se e crescer, refletindo os cânceres  que Packer faz questão de evitar com seus exames médicos diários. Vemos um desses exames, um exame de próstata ocorre durante uma conversa entre Packer e outro de seus conselheiros. Mesmo durante o sexo, ele pode pensar em nada mais do que a riqueza ou a minúcia de protegê-la. É por isso que defendo que o seu "corpo", a localização de seus desejos, prazeres (se é que ainda existem), e a dor, não residem em seu corpo físico, mas no reino etéreo, quase gnóstico do investimento. Ele e sua empresa são um só. No início do filme, ele é apenas uma pessoa, separado á parte da corporação, ele é uma "pessoa". Ele é uma entidade legal capaz de possuir e transferir somas.

Ao longo do filme, Packer sofre uma metamorfose do tipo, sair de sua crisálida da moeda e emergir como uma pessoa real novamente. Isto é indicado visualmente em alguns temas em um bom número de maneiras. Suas preocupações sobre sua próstata assimétrica reintroduzem preocupações para a integridade do corpo, uma vez que apresenta uma insegurança que não pode ser contabilizada em seu cálculo limpo e perfeito. A ameaça de envelhecimento paira sobre sua cabeça, e ele brinca que ele costumava ser "mais jovem do que todos os outros", mas agora está enfrentando, de uma pequena forma, o espectro da morte. Sua queda da riqueza em uma aposta selvagem ecoa a história de Ícaro, assunto que e é retificado nas manchas de graffiti que se acumulam em sua limusine, na viagem transitória dos arranha-céus brilhantes aos bairros operários n
a busca por um corte de cabelo, incluindo uma torta  surpresa no rosto lançada por um rebelado assassino. As moedas também são identificadas como ratos em uma conversa inicial divertida, e são um símbolo para a corrupção da riqueza e símbolo do encontro dos anarquistas que tentam rejeitar o sistema, mas acabam por ser uma parte dele.

No final, diante de seu próprio assassinato nas mãos de um ex-funcionário descontente interpretado por Paul Giamatti, ele atira na própria mão. Nós vemos o sangue correr para baixo, e ele começa a chorar quando alça a dor real. Depois de ter forçosamente se despojado da almofada imaginária da riqueza, ele agora enfrenta o mundo real em toda a sua feiura. Ele é revelado, finalmente, como um verdadeiro ser humano. Apesar de ainda ser inteligente e perspicaz, ele também ganhou uma medida de consciência. Ele vê tudo isso através da falsa e importante "justiça" do personagem de Giamatti, e confronta a morte. Embora ele nunca seja admirável ou simpático, exatamente, ele emerge como um ser humano, na último cena do filme, onde não sabemos se ele foi baleado ou não, essa é a parte importante.

O desempenho de Pattinson e direção de Cronenberg são capazes de nos dizer que apesar de tudo de desprezível que Packer fez, ele não é menos humano do que os manifestantes. Algo admirável sobre Cosmopolis é que, embora seja claramente um filme criticando o excesso sufocante de riqueza e o deslocamento e marginalização dos pobres, ele não deixa o público de fora, com uma moral fácil ou uma solução política arrumada. É por isso que, apesar do diálogo no filme ser abstrato e didático, o filme se encerra e ainda nos sentimos sem solução além da tensão por toda parte. Pode ser óbvio sobre o que se trata, mas é muito mais obtuso sobre o que acha que devemos fazer sobre isso. É um filme que aponta para os destroços fumegantes do capitalismo global consumista, embora se admita que no primeiro mundo temos toda a nossa identidade investida nele.




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